Cansado
e mesmo assim, continua-se
um homem cansado, estilo noir, anos 1930
Hoje é dia 18 de janeiro de um 2026 que começou agitado, pesado, cheio de expectativas, muita literatura, muito delta blues, harmonia desencontrada, &
cansado
porque a vida costuma ser um amontoado de coisas, não? Mas é isso, precisamos continuar a labuta, mesmo exausto, não há outra maneira de viver, quando não se tem ou a sorte necessária para ganhar uma megasena ou ser escolhido por uma editora de grande porte ou ter a viagem dos sonhos ou qualquer outra coisa que te deixa feliz; continuar, para viver, para sorrir, para ser o maluco beleza (como quis Seixas) e equilibrar a maluquice com a ‘belezice’ do dia a dia. E não desistir — desistir significa perder, e perder significa retroceder, e retroceder significa parar, e parar significa atrofiar, e atrofiar significa fenecer: um sonho?, vida?, é, estou cansado, mas isso não tira a beleza de ser quem se é.
Será que você aceita um atrasado feliz 2026? Afinal, o que é felicidade? De acordo com dicionários, felicidade consiste em — ORAS!, pesquisa aí, vai?! — e, usando de palavras eventualmente diferentes, retratam a mesmíssima coisa. O que é felicidade? Eu insisto. Felicidade é você fazer sua tarefa sem reclamar, ou, de outra forma, com um sorriso estampado no rosto. Resumi mal e porcamente, eu sei; queria fugir do ‘felicidade é, e basta’; então dia após dia estamos em nossas tarefas (o que me deixa mais feliz é escrever, pronto!) e precisamos continuar.
Concorda?
Discorda?
O foco não é esse. É outro. É diferente. É como uma árvore. Incansável, lenta, que atravessa obstáculos. Estive vendo agora mesmo algumas notícias sobre árvores. Na cidade de Atalanta, em Santa Catarina, uma árvore nasceu/cresceu/desenvolveu-se dentro de uma chaminé de (parece-me) um frigorífico desativado. E há outros casos por aí, mundo afora; cidade de Lunel, sul da França; em Luque, próximo a Assunção, no Paraguai — uma simples pesquisa, encontra-se. Entendo existir obstáculos diversos. Eu falei, no início desse parágrafo, ‘incansável’, mas como saber se essas mesmas árvores não cansaram de escalar tijolos e concreto? Tijolo e concreto são as agruras da vida, os trabalhos menos gratificantes, as pessoas inconvenientes, o autismo (pelo menos no meu caso; não, não sou grato nem mesmo comemoro meu autismo). Às vezes o cansaço é de carregar peso material — sei lá, sacos de cimento, tijolos, uma pilha de objetos comuns e incomuns entre si e que nos exige força física — e, às vezes, peso imaterial — chegar no fim do dia de um trabalho “simples”, mas excruciante, principalmente quando se é neurodivergente. Aí então o que se escuta? Um bom e velho blues choroso, eventualmente mais agitado (a vida tem disso, tem agito, tem calmaria, tem depressão, tristeza, tem resiliência, superação, identidade, alegria, mais tristeza, mais alegria, fogo, vibração, respiros, sexo, celibato, gordura, futebol, algo entre liberdade e prisão emocional, qualquer espécie de conceito de alegria perante fatos ou ilusões, religião, psicologia). A gente respira no automático, mas você já respirou? Fundo? Fechou os olhos enquanto? É disso.
O tempo é uma coisa entre engraçado e vulgar, entrelaçado e itinerante, ora aqui ora ali ora acolá, e depois aqui de novo, e depois lá outra vez. O tempo que você leu essa missiva, por exemplo; o tempo que você se permitiu mergulhar nessas reflexões. Passou, sei lá, cinco minutos? Ou uma vida inteira? É a árvore, a música, o blues, o nosso time do coração, os passos, o cabelo que cresce e é cortado e cresce e é cortado e cresce e é cortado, as unhas (encravadas ou não), a caneta que, de tanto manuscrever, acabou a tinta — tem que trocar, viu?
Eu agradeço sua leitura, e, se possível, por favor, deixe um comentário para eu saber de que cidade você está falando, digo, sua opinião a respeito.
Dica de leitura:
Borges Bioy - Um modelo para a morte / Os suburbanos / O paraíso dos crentes
Um pedido especial:
Importante: a imagem de apoio dessa missiva, foi gerada por ia.
gratidão!


